A nossa pesquisa de campo revelou que o problema central a ser resolvido pela luminária não é simplesmente a falta de uma luz, mas sim a necessidade de criar um ambiente que ofereça segurança emocional e regule a rotina de sono. os pais e responsáveis, ao buscarem uma solução, estão tentando evitar que seus filhos acordem no meio da noite, e venham para a cama do casal ou fiquem assustados para dormir, e com isso apresentando resistência para dormirem sozinhos, o que impacta diretamente a qualidade do descanso de toda a família.
Essa preocupação é o foco da nossa pesquisa, ganham uma camada de profundidade e urgência ao analisarmos o artigo "sono e comportamento em crianças atendidas em um serviço de psicologia" (el rafihi-ferreira et al., 2016). o estudo, ao avaliar a relação entre problemas de sono e questões de comportamento, reforça algo crucial: as dificuldades que encontramos na rotina de sono, manifestadas pelo medo e pela busca constante de conforto na madrugada, não são meros caprichos infantis. elas estão consistentemente associadas a problemas comportamentais, tanto internalizantes, como ansiedade e tristeza, quanto externalizantes.
Em outras palavras, buscamos desenvolver uma luminária que possa oferecer uma ferramenta que, ao normalizar e pacificar a rotina de sono, atua indiretamente na prevenção de problemas de desenvolvimento e comportamento da criança. O sono de qualidade é um pilar para a saúde mental e o desenvolvimento infantil, conforme salientado pela psicologia. a luminária, portanto, é um investimento direto no bem-estar psíquico e comportamental da criança.
Trabalhar com as sombras
O desejo da criança pelo projetor de imagens e a preferência por figuras nas projeções demonstram que a luz deve ser usada como uma ferramenta lúdica e interativa. essa constatação da nossa pesquisa encontra uma poderosa justificativa pedagógica no artigo "Teatro de sombras na educação infantil, na contemporaneidade: vivências no uso de telas móveis" (vieira, 2015).
O trabalho de Vieira mostra como o teatro de sombras, ao utilizar a luz (como lanternas) e a projeção em telas, transforma objetos simples em figuras gigantes, oferecendo à criança um espaço de criação, descoberta e, crucialmente, de controle sobre o escuro. a experiência descrita no artigo, onde as crianças exploraram o movimento das lanternas para modificar o tamanho das sombras, aumentando a forma projetada quando aproximavam o objeto, sublinha a importância da interação física e da manipulação da luz.
Transportando esse conceito para o nosso projeto de luminária, entendemos que o projetor ideal deve ser mais do que um simples display de figuras, mas sim que possibilite que usuário infantil atue como diretor da sua própria experiência luminosa. a criança pode, assim, observar as projeções de outra maneira, transformando seus receios em uma brincadeira. essa capacidade de intervir na luz confere autonomia à criança e desmistifica o escuro, utilizando a sombra e a projeção como pontes para a imaginação e a segurança emocional, elementos que se mostrarão vitais para a eficácia do nosso produto.
Música na infância e rotina
A nossa pesquisa para o desenvolvimento de uma luminária infantil, vai muito além da estética, buscando uma fundamentação que una o design à neurociência. os dados que coletamos junto aos pais e crianças revelaram que a luminária ideal precisa ser mais do que um objeto de iluminação; ela deve ser um agente de segurança emocional e um promotor do relaxamento, e é aí que a literatura especializada nos oferece um apoio robusto.
O fator mais crítico identificado nas entrevistas e formulários online, além da rejeição total a luzes fortes e estimulantes, foi o desejo do adulto e criança pela função de som ou música de ninar. Esses fatos mostram sobre a necessidade de conforto sensorial e lúdico, e encontram um valioso eco nos estudos sobre o neurodesenvolvimento e música, como os desenvolvidos por Mauro Muszkat.
O ensaio "Música e neurodesenvolvimento: Em busca de uma poética musical inclusiva" (muszkat, 2019), nos convida a entender a música e as experiências sensoriais como ferramentas capazes de ativar as redes motivacionais da criança e facilitar o tratamento de transtornos. ao integrar uma segunda função de som suave, a luminária se insere diretamente nesse campo, utilizando a poética musical para criar um ambiente que não apenas ilumina, mas que também acalma o sistema nervoso. Isso valida a nossa conclusão de que a luz ideal deve ser acompanhada de estímulos sonoros tranquilos.
Além disso, o design, portanto, tem o papel de mediador emocional, onde a luz suave, a projeção lúdica e a forma amigável atuam em conjunto para criar uma experiência sensorial completa, cientificamente alinhada com o bem-estar e o neurodesenvolvimento infantil. a luminária, no final das contas, é uma interface que traduz a necessidade do adulto por eficácia na rotina de sono e o desejo inato da criança por segurança e imaginação.
Design e processos de fabricação
O trabalho de conclusão de curso sobre "Luminária para quarto de bebê" (Liira, 2014) nos oferece uma base fundamental sobre a importância do design e da ergonomia no desenvolvimento de produtos para o ambiente infantil, um contexto que se estende naturalmente para a nossa luminária destinada a crianças um pouco mais velhas. este TCC resume de forma essencial que, no design de iluminação para esse público, a forma e a função são inseparáveis e precisam ser guiadas por critérios técnicos e emocionais.
O TCC reforça a necessidade de que a luminária não seja apenas esteticamente agradável, mas que sua ergonomia e seu material contribuam ativamente para a segurança e o bem-estar do usuário. isso valida diretamente as demandas que identificamos na nossa pesquisa: a rejeição dos pais a luminárias que ofereçam riscos. No design do nosso produto, portanto, deve focar em materiais que sejam resistentes e não possuam quinas vivas, tenha um design divertido e atrativo, que sejam agradáveis ao toque, transformando a luminária em um objeto de conforto e segurança, e não em um risco ou um impedimento à interação.
A importância de um bom projeto de design nesse contexto se manifesta na capacidade de equilibrar as necessidades conflitantes dos usuários. por um lado, o adulto exige funções práticas como bateria recarregável(eliminando a insegurança e o incômodo dos fios e pilhas) e o desligamento automático da luz (timer). Por outro, a criança necessita do lúdico e do conforto (luz suave e portátil). O design, embasado na pesquisa de Lira, é o elo que transforma esses requisitos em um produto coeso: uma luminária cuja estética amigável convida a criança a interagir e cuja tecnologia embutida (como a fonte de luz e as funções de som/timer) garante ao adulto a paz de espírito de um sono seguro e tranquilo
O corte a laser
A tecnologia de corte a laser, no nosso projeto, transcende a função de mera ferramenta de fabricação; ela é a ponte que conecta as descobertas conceituais da nossa pesquisa com a materialidade do produto final. A exigência da criança por um projetor de imagens, que pode ter a capacidade de transformar o seu quarto em um universo interativo e seguro, é o ponto onde o laser se torna indispensável. essa técnica nos permite criar as microaberturas e as máscaras necessários para as projeções com uma precisão que seria inatingível por métodos convencionais. o resultado é uma imagem projetada nítida e clara, potencializando o efeito lúdico da luminária.
Além disso, o laser é crucial para garantir a segurança e a ergonomia. como designers, sabemos que não podemos ter acabamento ruins que levam a desvalorização e confiança no produto. O corte a laser nos permite cortar materiais resistentes, como acrílico ou madeira fina, em formas orgânicas e curvas, permitindo a criação de qualquer forma e figura, e também é capaz de fazer gravações, atendendo ao apelo estético das crianças, enquanto garantimos encaixes perfeitos e a ausência de rebarbas, cumprindo os critérios de segurança exigidos pelos pais.
Portanto, o corte a laser não é um extra, mas o facilitador técnico que assegura a precisão do projetor e a segurança e atratividade do design, alinhando a função técnica com o valor emocional do nosso produto.
Referencias
EL RAFIHI-FERREIRA, Renatha et al. Sono e comportamento em crianças atendidas em um serviço de psicologia. revista psicologia: teoria e prática, são paulo, sp, v. 18, n. 2, maio-ago. 2016.
VIEIRA, Ana Lucia Kroeff. Teatro de sombras na educação infantil, na contemporaneidade: vivências no uso de telas móveis. educação, artes e inclusão, v. 11, n. 1, 2015.
MUSZKAT, Mauro. Música e neurodesenvolvimento: em busca de uma poética musical inclusiva. literartes, n. 10, 2019.
LIRA, Elaine de Souza. Luminária para quarto de bebê. 2014. 72 f. trabalho de conclusão de curso (bacharelado em design) – Universidade Federal da Paraíba, Rio Tinto, 2014.